O que O Mistério do Jogo das Paciências nos pode ensinar sobre a pergunta «Quem sou eu?»
Jostein Gaarder, “O Mistério do Jogo das Paciências”, 1996, Editorial Presença.
Há uma diferença entre saber que existimos e reparar verdadeiramente nisso.
Acordamos, cumprimos tarefas, respondemos a mensagens, tomamos decisões. Quando alguém nos pergunta quem somos, apresentamos um nome, uma profissão, talvez uma história de vida. Essas respostas têm valor. Mas será que alguma delas esgota aquilo que somos?
A literatura de Jostein Gaarder abre espaço para esta pergunta. Nos seus livros, a experiência humana volta a tornar-se surpreendente. O mundo conhecido recupera uma estranheza que a rotina costuma esconder.
É por isso que a sua obra oferece um diálogo fecundo com o EGO SUM — O Programa do Eu Sou: pode ajudar-nos a prestar atenção à existência antes de procurarmos defini-la.
Uma viagem em busca de alguém
Em O Mistério do Jogo das Paciências, conhecido em inglês como The Solitaire Mystery, Hans Thomas viaja com o pai através da Europa à procura da mãe. A viagem é também uma aproximação à história da família e às circunstâncias que tornaram possível a vida do rapaz.
Um pequeno livro encontrado pelo caminho abre outras narrativas. O baralho de cartas dá forma à construção do romance, e a figura do joker introduz a possibilidade de olhar para o mundo com perguntas renovadas. WOOK
O leitor acompanha uma procura concreta, mas acaba por encontrar uma interrogação que lhe diz respeito: que sabemos realmente sobre aquilo que nos trouxe até aqui?
Encontrar-se onde se está
No início do romance, Hans Thomas comenta a decisão da mãe de partir para se encontrar. O seu conselho termina com uma frase breve:
«Permaneçam exactamente onde estão.»
— Jostein Gaarder, O Mistério do Jogo das Paciências, capítulo inicial. Tradução de trabalho a partir da versão inglesa de Sarah Jane Hails. us.macmillan.com
Quem fala é um filho que sente a falta da mãe. Há ironia, afecto e dor nesta observação. Lê-la com atenção exige reconhecer esse contexto. Algumas pessoas precisam efectivamente de mudar de lugar ou de circunstâncias para recuperar a possibilidade de viver com liberdade.
Ainda assim, a frase permite uma pergunta útil: estaremos a procurar, num futuro imaginado, uma atenção a nós próprios que podemos começar a exercer agora?
Por vezes, adiamos esse encontro. Quando houver mais tempo. Quando terminar esta fase. Quando conseguirmos resolver tudo. Entretanto, a vida prossegue, e a pergunta sobre quem somos fica entregue às respostas habituais.
Encontrar-se pode começar por reconhecer o que já está presente: uma inquietação que regressa, um desejo que evitamos nomear, uma obrigação aceite sem exame, uma relação que pede cuidado.
O joker e a liberdade de perguntar
O joker oferece uma imagem sugestiva para esta leitura. Dentro de um universo organizado pelas cartas, a sua singularidade permite-nos pensar na consciência que interroga a ordem em que participa.
Também nós desempenhamos papéis. Somos pais, professores, artistas, companheiros, profissionais. Aprendemos formas de responder e expectativas acerca do que devemos ser. Esses papéis dão estrutura à vida, mas podem ocupar todo o espaço da nossa atenção.
Podemos, então, perguntar: quando digo «sou assim», estou a reconhecer algo que conheço em mim ou a repetir uma descrição que nunca examinei?
A pergunta não nos coloca acima dos outros. Torna-nos responsáveis pelo modo como participamos na vida comum. Permite reconhecer um hábito, reconsiderar uma reacção e escolher com maior clareza.
A história que contamos sobre nós
As histórias dentro de histórias de Gaarder convidam o leitor a mudar de perspectiva. Aquilo que parecia uma explicação suficiente pode revelar-se parte de uma narrativa mais ampla.
Na nossa vida acontece algo semelhante. Um acontecimento pode ser contado como fracasso, injustiça, aprendizagem ou mudança de rumo. Cada leitura ilumina alguns aspectos e deixa outros na sombra.
Isto não significa que os factos sejam indiferentes. Pelo contrário: conhecer-se exige distinguir o que aconteceu da interpretação que construímos depois. A história que contamos deve poder ser interrogada à luz da experiência.
Uma pessoa pode ter vivido uma rejeição sem que toda a sua existência seja definida por ela. Pode reconhecer uma capacidade sem precisar de a transformar numa personagem que representa permanentemente.
Há liberdade em descobrir que uma descrição de nós próprios pode ser revista.
Da pergunta sobre o eu ao cuidado com a vida
Esta leitura de Gaarder ganha profundidade quando se aproxima de outros livros do autor.
Em The Orange Girl, a carta de um pai falecido liga a memória ao encontro entre gerações. Em Through a Glass Darkly, o diálogo entre uma menina doente e um anjo aproxima a reflexão da fragilidade do corpo. Em Maya, a história humana cruza-se com a evolução e com o tempo do universo. Oslo Literary Agency
Mais tarde, Anna coloca em primeiro plano a biodiversidade e o futuro da Terra. Em It Is We Who Are Here Now, a reflexão pessoal inclui o cuidado de nós próprios, dos outros e do planeta. Oslo Literary Agency
Podemos ler neste conjunto um convite a alargar a pergunta inicial. Saber quem somos envolve reconhecer as relações que nos sustentam e as consequências das nossas escolhas.
Que atenção damos às pessoas próximas? Que hábitos merecem ser revistos? Que mundo ajudamos a deixar a quem vier depois de nós?
EGO → ◇ → SUM
No EGO SUM, o losango vazio representa o espaço consciente de encontro entre o Eu e o Sou: o lugar onde essa relação pode ser reconhecida e trabalhada.
Propomos aqui uma aproximação entre esse símbolo e a liberdade de interrogar que encontramos na leitura de Gaarder. Trata-se de uma interpretação do Programa, e não de uma explicação da intenção do escritor.
O EGO reúne as formas pelas quais nos reconhecemos: o nome, a biografia, os papéis e as ideias que temos sobre nós. No espaço do ◇, podemos observar essas formas, compreender a sua relação e examinar o que pedem de nós. O SUM recorda a presença de quem vive essa experiência e pode responder por ela.
Este movimento pode realizar-se numa conversa, numa decisão quotidiana ou num momento de silêncio. A atenção torna-se prática quando altera a maneira como escutamos, escolhemos e cuidamos.
Um exercício para hoje
Reserve dez minutos e abra um caderno. Este exercício é uma proposta original do EGO SUM, inspirada pelos temas do artigo.
Comece por observar. Durante um minuto, repare no lugar onde está, nos sons e no contacto do corpo com a cadeira ou com o chão. Não precisa de produzir uma experiência especial.
Escreva três formas habituais de se apresentar. Pode começar por «Sou professor», «Sou mãe» ou «Sou uma pessoa reservada». Pergunte, diante de cada frase: em que situações esta descrição me ajuda a compreender-me? O que deixa de fora?
Registe uma pergunta que tem adiado. Escolha algo próximo da sua vida: uma decisão pendente, uma reacção frequente ou uma necessidade que ainda não conseguiu expressar. Procure formulá-la com precisão.
Escolha um gesto de presença. Pode ser ouvir alguém sem interromper, esclarecer um compromisso ou reservar tempo para uma tarefa que considera importante. Defina um gesto possível para hoje.
Ao fim do dia, anote o que aconteceu. Esse registo permitirá verificar se a reflexão encontrou expressão na vida.
A pergunta que pode acompanhar-nos
Uma das possibilidades mais férteis da literatura de Gaarder é devolver-nos perguntas que julgávamos demasiado simples. O que significa existir? Como chegámos aqui? Como queremos usar o tempo de que dispomos?
O conhecimento de si pode começar quando deixamos de passar apressadamente por essas perguntas. Quando reconhecemos que a pessoa que as formula também faz parte do mistério que procura compreender.
Hoje, no meio de uma vida concreta, há um ponto de partida disponível: reparar que estamos aqui e perguntar como queremos estar.
Conheça o EGO SUM — O Programa do Eu Sou e descubra um percurso de estudo, reflexão e prática dedicado ao conhecimento de si.
Texto de reflexão do EGO SUM em diálogo com a obra de Jostein Gaarder. As aproximações ao Programa e o exercício são propostas próprias.

